Assinará o atestado de vadia no momento que resolveu sair de casa, levando pela mão, sua filha de oito anos.
-Uma puta, com toda certeza! Afinal, abandonou o marido pra "cair no mundo",
-Obviamente fez isso com o objetivo de "dar pra todo mundo", que outro motivo ela teria?
-O marido, um pobre coitado, sempre trabalhou, ganhava bem, se esforçando pra dar o que ela queria, um pai exemplar, brincando com a filha, protegendo-a, um homem prendado, ajudava tanto nas tarefas de casa, nunca levantou a mão para ela.
-Traição?
-Jamais! Ele nunca teve olhos para outra.
-Um santo!
-Mas é assim mesmo, as mulheres como ela, não querem homens como ele, elas querem um cafajeste, um homem que lhe bata toda noite, chegue bêbado, drogado, desnorteado, que a trate como uma qualquer, porque é o que ela é, mulheres como ela querem um "porta de cadeia", um vagabundo que as obrigará a sustentá-lo, um homem que chegue em casa com cheiro de perfume de outra, marca de batom barato, que chegue em casa de manhã, que não de satisfação, que pegue o dinheiro na carteira dela, sem avisá-la, que a explore e acabe com sua juventude;
-É o tipo que mulheres (como ela) quer e merece ter.
-Claro que ela não se separou simplesmente porquê já não estava mais feliz, AFINAL, tudo que uma mulher pode sonhar é um marido que não lhe agrida, que trabalhe, que não lhe trai, que não tem vícios...
-E isso obviamente a fará feliz
-Obviamente todos sabem melhor da relação deles, do que ela própria, todos devem estar corretos. Afinal, O QUE ELA SABE?
Ela apenas convive com ele entre quatro paredes, e qualquer característica desagradável dele pode ser tolerável diante de todas as suas qualidades. Claro que é possível relevar a mania dele de jogar na cara dela que a sustenta, de reclamar que ela não é bonita como antes, de falar em lugares públicos que é ele quem está pagando.
A mania dele de insistir no sexo em dias que ela está saturada, de impedi-lá de conversar com os amigos do sexo masculino que ela tem, ou melhor, tinha. A mania de se intrometer na roupa que ela usava, de ler as conversas dela no celular ou nas redes sociais. O costume dele de falar mal da família dela, de falar de forma desrespeitosa com ela na frente da filha, de menospreza-lá por não ter se profissionalizado, não ter feito um curso ou faculdade, apesar de as poucas vezes que ela mencionou a possibilidade de estudar, ele ter se posicionado completamente contra.
Claro que é fácil perdoar a mania dele de compará-la com a ex, de descontar nela o estresse do trabalho, da derrota no futebol, de ignorar quando ela fala com ele, de reclamar de absolutamente tudo o que ela cozinha, de falar mal do estilo de roupa que ela usa...
Enfim, o que são agressões verbais, tortura psicológica, ameaça a sua integridade e imagem diante de sua filha, ameaça de ficar com a guarda da menina... O que isso importa, tão insignificante diante da agressão física, tão insignificante que está apenas a corroendo por dentro, que apenas a está enlouquecendo, que apenas acabou com qualquer rastro de felicidade e amor que ela sentia.
Mas ela é apenas uma vadia mesmo, ela apenas tolerou tudo e por tanto tempo, pela filha, e agora que resolveu tentar lutar para recuperar sua felicidade, sua sede de viver, agora que ela resolveu voltar a andar no tempo, agora, ela é apenas uma vadia e ele, coitado, pobre homem, é a vítima.

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