Traí, trai mesmo, não tenho vergonha de admitir, só tenho um arrependimento, não ter feito isso antes: O casamento já não fazia mais nenhum sentido, conversávamos sobre coisas banais, pouco interessados nas respostas um do outro, não sentíamos mais ciúmes ao ver o outro olhando para um desconhecido, na verdade, eu ficava aliviada ao vê-lo de olhos cravados em outra mulher, era a desculpa perfeita para dormir raivosa, para negar fazer sexo, para brigar até ele se estressar e sair do meu pé. O sexo já era uma espécie de tortura, monótono, mecânico, até fingir orgasmo passou a me incomodar, e como eu fingia, quase sempre, praticamente todas as vezes que transávamos, isso o deixava mais excitado, o fazia acabar mais rápido, e tudo o que eu queria é que acabasse, então fingia.
A verdade, é que nossa crise arrastou-se por anos, mas as coisas pioraram quando nossa filha, Clarissa, completou dezesseis anos, começou a namorar o filho do vizinho, o menino de dezoito anos, chamado Pedro, passou a frequentar nossa casa, Clarissa chegava da escola sempre a uma da tarde, almoçava, tomava banho e esperava o namoradinho, o garoto me cumprimentava tímido, logo os dois iam "assistir um filme" no quarto e começava a pegação, digamos que minha filha não é tão discreta ou reservada quanto a mãe e definitivamente mais satisfeita que a mãe, saiam corados do quarto e ela com rosto em êxtase. Mas o que incomodava eram os gritos e gemidos da minha filha, a face dela de pura alegria, de completa satisfação, de quem havia saciado sua sede, me consumia.
Um dia, a ouvi falar com uma amiga, como o namorado era incrível no quesito sexo, que ela já havia tido alguns orgasmos desde que começaram a transar, ela falava extasiada, e depois desse momento, não havia mais como abafar as perguntas que se formavam na minha mente: o que era aquela sensação? Como seria ter um orgasmo? Como minha filha, com menos da metade da minha idade, já sabia o que era essa sensação e eu não?
Pra piorar, a mais ou menos dois anos, mudou se para o apartamento de frente ao nosso, um casal, com seus dois filhos, Pedro de dezoito anos, atual namorado da minha filha, e Paulo, de vinte e poucos anos, o jovem logo começou a reparar em mim, me devorando com os olhos, não que eu seja uma mulher que gosta de homens mais novos, na verdade, nunca prestei muita atenção neles, mas o Paulo foi diferente, um sorriso fácil no canto dos lábios, espontâneo, sempre feliz, com o emprego, a faculdade, com os esportes que prática. Ombros largos, braços grandes, uma pele morena e olhos verdes, uma tentação. Trocamos olhares por meses a fio, sonhei com ele noites seguidas, quando me deitava com meu marido, imaginava como seria com ele...
Numa tarde fatídica, que mudaria pra sempre minha vida, ele bateu a minha porta, pra entregar uma carta, que o porteiro lhe entregou por engano, não resistimos, a tensão que era palpável e já nos consumia a mais de ano, levou minha sanidade e no sofá da minha casa, tive meu primeiro orgasmo. Passei uma semana completamente entorpecida, minha mente variava entre a culpa e o desejo de fazer de novo, já fazia mais de uma década que não sentia, de fato, vontade de transar, mas depois daquela tarde no sofá de casa, essa vontade dominou minha mente.
Em uma semana, pedi divórcio, a culpa e o desejo se converteram em uma enorme raiva, que me consumiu e tudo o que eu conseguia pensar era nas duas décadas de sexo ruim, que me atirasse a primeira pedra, aquele que nunca teve um orgasmo e não sabe o quanto eles fazem falta. Não haveria juiz no mundo que não se solidarizaria com a minha situação, casada com um homem incompetente, por duas décadas, presa a uma relação, sem ao menos imaginar o que estava perdendo. No final das contas, a raiva, o desejo e a culpa se abrandaram, não sobrou arrependimento da traição, apenas do tempo que levei para traí-lo, no final das contas, não sobrou casamento ou família, mas o orgasmo, ah, esse ficou e se multiplicou como o número de amantes.

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