Ela tinha tudo pra “dar certo”, mas o que é dar certo na
vida, além de aparentar possuir um status financeiro, uma carreira de sucesso,
um relacionamento amoroso feliz, e todas essas coisas que se cobra da vida
adulta, como se a felicidade estivesse em cumprir uma lista o obrigações, uma
lista “realizações”, na qual, seu grau de felicidade e o grau que você “deu
certo”, são medidos pelo tanto de itens que você cumpriu.
Se cada um desses itens não estivesse cumprido, ela jamais
saberia que a felicidade naquele momento estava mais longe do que no início da
sua trajetória, quando ainda não havia cumprido nada, como se a cada passo que
ela deu para alcançar mais um objetivo, a tivesse distanciado mais do objetivo
final: a felicidade.
Jogou com todas as cartas que possuía, sacrificou-se no
caminho, abriu mão de coisas que não seria capaz de recuperar, terminou
amizades, deu adeus a sonhos loucos que não lhe dariam a imagem de felicidade
que ela desejava, apenas lhe trariam de fato alguma felicidade, mas não a
imagem, que era tão importante quanto.
Da família, ela recebeu o apoio necessário, aquele que
impulsiona qualquer carreira, boa e cara educação, tratamentos médicos para
qualquer problema físico e emocional, condições para estudar fora do país, para
ir e vir da faculdade com conforto, tempo para administrar seus estudos e se
dedicar apenas a ele, afinal, ela precisava cumprir a lista.
Janela aberta com oportunidades seria um eufemismo, ela
tinha todas as portas, portões e pontes para ser uma mulher de sucesso, quando
terminou os estudos com louvor e ingressou na empresa da família com um cargo
elevado, apesar de não possuir nenhuma experiência prática na área, pareceu que
o bom desempenho na fase adulta estava quase completo.
Do mundo, ela esperava sempre o melhor, fora aquilo que ela
sempre recebeu, tudo por mérito, ela acreditava em meritocracia, afinal, era um
exemplo vivo, de que dedicação e esforço levava longe. Agora, só lhe faltava um
relacionamento perfeito com um homem invejável, alguém melhor do que os maridos
das escassas amigas da escola que ainda mantinha contato.
Quinto relacionamento que ela tentava engrenar, mas parecia
haver algo de errado com ela, talvez a perfeição assustasse, talvez se fosse
menos bem sucedida, se ganhasse menos, se fosse menos inteligente, quem sabe se
fosse menos ela, talvez algum dos seus relacionamentos tivessem dado certo. Mas
no sexto, ela acertou finalmente, quando já estava quase desistindo. Casou,
teve um dois filhos, uma menina e um menino, fez viagens para o exterior, subiu
de cargo na empresa, o marido passou num concurso pra juiz, eram um casal
modelo.
Andar pelo mundo como uma vitoriosa, era algo inerente a sua
existência, ela tinha conseguido tudo, realmente, o mundo é um lugar para os
fortes, aqueles que lutam diariamente. Um dia, sozinha na empresa, ela não
sabia o lhe atormentava a cabeça, mas sempre que alcançava algo mais para
tornar sua felicidade maior, sua mente parecia lhe sabotar, lhe dizendo algumas
verdades que não queria ouvir, que ela não era feliz de verdade, que não amava
o marido, que não tinha saco pra crianças, que não queria trabalhar naquela área,
que não queria viver como todos lhe diziam que era o correto, sua mente dizia,
que ela podia virar uma música...
Ela se jogou da janela do quinto andar.

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