Nada é fácil de entender

em segunda-feira, 9 de abril de 2018



Ela tinha tudo pra “dar certo”, mas o que é dar certo na vida, além de aparentar possuir um status financeiro, uma carreira de sucesso, um relacionamento amoroso feliz, e todas essas coisas que se cobra da vida adulta, como se a felicidade estivesse em cumprir uma lista o obrigações, uma lista “realizações”, na qual, seu grau de felicidade e o grau que você “deu certo”, são medidos pelo tanto de itens que você cumpriu.

Se cada um desses itens não estivesse cumprido, ela jamais saberia que a felicidade naquele momento estava mais longe do que no início da sua trajetória, quando ainda não havia cumprido nada, como se a cada passo que ela deu para alcançar mais um objetivo, a tivesse distanciado mais do objetivo final: a felicidade.

Jogou com todas as cartas que possuía, sacrificou-se no caminho, abriu mão de coisas que não seria capaz de recuperar, terminou amizades, deu adeus a sonhos loucos que não lhe dariam a imagem de felicidade que ela desejava, apenas lhe trariam de fato alguma felicidade, mas não a imagem, que era tão importante quanto.

Da família, ela recebeu o apoio necessário, aquele que impulsiona qualquer carreira, boa e cara educação, tratamentos médicos para qualquer problema físico e emocional, condições para estudar fora do país, para ir e vir da faculdade com conforto, tempo para administrar seus estudos e se dedicar apenas a ele, afinal, ela precisava cumprir a lista.

Janela aberta com oportunidades seria um eufemismo, ela tinha todas as portas, portões e pontes para ser uma mulher de sucesso, quando terminou os estudos com louvor e ingressou na empresa da família com um cargo elevado, apesar de não possuir nenhuma experiência prática na área, pareceu que o bom desempenho na fase adulta estava quase completo.

Do mundo, ela esperava sempre o melhor, fora aquilo que ela sempre recebeu, tudo por mérito, ela acreditava em meritocracia, afinal, era um exemplo vivo, de que dedicação e esforço levava longe. Agora, só lhe faltava um relacionamento perfeito com um homem invejável, alguém melhor do que os maridos das escassas amigas da escola que ainda mantinha contato.

Quinto relacionamento que ela tentava engrenar, mas parecia haver algo de errado com ela, talvez a perfeição assustasse, talvez se fosse menos bem sucedida, se ganhasse menos, se fosse menos inteligente, quem sabe se fosse menos ela, talvez algum dos seus relacionamentos tivessem dado certo. Mas no sexto, ela acertou finalmente, quando já estava quase desistindo. Casou, teve um dois filhos, uma menina e um menino, fez viagens para o exterior, subiu de cargo na empresa, o marido passou num concurso pra juiz, eram um casal modelo.

Andar pelo mundo como uma vitoriosa, era algo inerente a sua existência, ela tinha conseguido tudo, realmente, o mundo é um lugar para os fortes, aqueles que lutam diariamente. Um dia, sozinha na empresa, ela não sabia o lhe atormentava a cabeça, mas sempre que alcançava algo mais para tornar sua felicidade maior, sua mente parecia lhe sabotar, lhe dizendo algumas verdades que não queria ouvir, que ela não era feliz de verdade, que não amava o marido, que não tinha saco pra crianças, que não queria trabalhar naquela área, que não queria viver como todos lhe diziam que era o correto, sua mente dizia, que ela podia virar uma música...

Ela se jogou da janela do quinto andar.

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