Ao olhar nos olhos dela, viu um mar negro e profundo, não teve coragem de mergulhar, pois a superfície já o assustava. Encarou por uma eternidade aqueles olhos e a cada minuto, encontrava um novo motivo para temer, deles transbordavam as marcas que lhe haviam deixado, as razões para sentir tanta dor.
Ela se afogou naqueles momentos de sofrimento e ele podia ver morta a garota que conheceu no passado. Agora, ela era apenas aquele mar, que se voltava contra todos, que virava cada barco que tentasse navegar, que destruía qualquer pessoa que tivesse coragem de mergulhar. Ela havia se convertido em pura fúria e tempestade e não existia nada mais perigoso em todo o universo.
Ele podia ver as marcas dos dias que sentiu fome, podia ver que não foram poucos, enxergava as marcas dos abusos e a dor foi tão grande, tão real, que parecia sentir em si cada abuso, enxergou os momentos de humilhação, as horas que sofreu violência, as noites que dormiu sem proteção, que trabalhou com cada fibra do seu corpo gritando de exaustão, viu a sua força se extinguir diante de tanta luta, cada minuto que seu cérebro tentou apagar, e o instante exato, que ela desistiu de tudo e se deixou ser levada para o fundo do mar.
Ele viu cada segundo que lhe arrancou a humanidade, que lhe tirou a sanidade, que lhe destruiu e nos quais ela se afogou. E quando percebeu, era tarde demais, havia mergulhado naquele mar de dor, agora era ele quem estava morrendo dentro dos olhos dela e ele não queria lutar para não se afogar.

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