Um relato
Uma amiga me contou que quando era criança, um parente deitava ela na cama, dava-lhe um jogo portátil para distração e se deitava sobre ela, não tirava as roupas da menina, mas passava a mão por ela, de forma leve e por cima da roupa, enquanto se ele masturbava. Pra sua sorte, o abusador não ficou muito tempo sobre o mesmo teto que ela, mas definitivamente, ele deixou-lhe marcas para sempre.
Enquanto crescia, passou a entender o que aconteceu no passado, passou a se perguntar o motivo dos seus familiares não a protegerem daquilo, passou a odiar onde estava e com quem estava. Passou a se perguntar se havia feito algo de errado para aquilo acontecer, se ela tinha algo de errado, passou a não confiar em ninguém, pois se sua família não a protegeu, quem protegeria?
Ela tinha um pesadelo, frequentemente, o mesmo pesadelo, um homem a perseguindo no meio da noite enquanto caminhava sozinha, sempre o mesmo pesadelo, acabando quando ele enfim a alcançava e agarrava seu braço. Acordava atordoada, desesperada, sabia o quê viria pela frente, o homem não tinha rosto, todos os homens representavam um perigo, todos os rosto eram hostis na sua perspectiva.
As marcas ficaram e prejudicaram seus relacionamentos amorosos, ela não tinha um apetite sexual normal, podia passar sem sexo por um longo período sem sentir falta ou vontade, também sentia de forma diferente qualquer insistência de investida amorosa, ela sentia como se estivessem violando seu espaço, como se estivessem violando seu direito, como se a estivessem violando.
Todo toque sem aviso prévio e autorização é um incomodo, toda demonstração de carinho é desagradável, todo homem é um perigo, todo o mundo é um campo de batalha, e ela tem que ser forte, não em um dia, não em um momento complicado, todos os momentos são complicados, todos os dias são difíceis, todo acordar é uma luta, toda noite lhe traz medo, toda comunicação com o sexo oposto é um risco, todo dia a marca dói.

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