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Marcas

em sexta-feira, 15 de junho de 2018


Um relato

Uma amiga me contou que quando era criança, um parente deitava ela na cama, dava-lhe um jogo portátil para distração e se deitava sobre ela, não tirava as roupas da menina, mas passava a mão por ela, de forma leve e por cima da roupa, enquanto se ele masturbava. Pra sua sorte, o abusador não ficou muito tempo sobre o mesmo teto que ela, mas definitivamente, ele deixou-lhe marcas para sempre. 

Enquanto crescia, passou a entender o que aconteceu no passado, passou a se perguntar o motivo dos seus familiares não a protegerem daquilo, passou a odiar onde estava e com quem estava. Passou a se perguntar se havia feito algo de errado para aquilo acontecer, se ela tinha algo de errado, passou a não confiar em ninguém, pois se sua família não a protegeu, quem protegeria?

Ela tinha um pesadelo, frequentemente, o mesmo pesadelo, um homem a perseguindo no meio da noite enquanto caminhava sozinha, sempre o mesmo pesadelo, acabando quando ele enfim a alcançava e agarrava seu braço. Acordava atordoada, desesperada, sabia o quê viria pela frente, o homem não tinha rosto, todos os homens representavam um perigo, todos os rosto eram hostis na sua perspectiva.

As marcas ficaram e prejudicaram seus relacionamentos amorosos, ela não tinha um apetite sexual normal, podia passar sem sexo por um longo período sem sentir falta ou vontade, também sentia de forma diferente qualquer insistência de investida amorosa, ela sentia como se estivessem violando seu espaço, como se estivessem violando seu direito, como se a estivessem violando. 

Todo toque sem aviso prévio e autorização é um incomodo, toda demonstração de carinho é desagradável, todo homem é um perigo, todo o mundo é um campo de batalha, e ela tem que ser forte, não em um dia, não em um momento complicado, todos os momentos são complicados, todos os dias são difíceis, todo acordar é uma luta, toda noite lhe traz medo, toda comunicação com o sexo oposto é um risco, todo dia a marca dói. 

Tormenta

em sexta-feira, 30 de março de 2018


Ao olhar nos olhos dela, viu um mar negro e profundo, não teve coragem de mergulhar, pois a superfície já o assustava. Encarou por uma eternidade aqueles olhos e a cada minuto, encontrava um novo motivo para temer, deles transbordavam as marcas que lhe haviam deixado, as razões para sentir tanta dor. 

Ela se afogou naqueles momentos de sofrimento e ele podia ver morta a garota que conheceu no passado. Agora, ela era apenas aquele mar, que se voltava contra todos, que virava cada barco que tentasse navegar, que destruía qualquer pessoa que tivesse coragem de mergulhar. Ela havia se convertido em pura fúria e tempestade e não existia nada mais perigoso em todo o universo. 

Ele podia ver as marcas dos dias que sentiu fome, podia ver que não foram poucos, enxergava as marcas dos abusos e a dor foi tão grande, tão real, que parecia sentir em si cada abuso, enxergou os momentos de humilhação, as horas que sofreu violência, as noites que dormiu sem proteção, que trabalhou com cada fibra do seu corpo gritando de exaustão, viu a sua força se extinguir diante de tanta luta, cada minuto que seu cérebro tentou apagar, e o instante exato, que ela desistiu de tudo e se deixou ser levada para o fundo do mar.

Ele viu cada segundo que lhe arrancou a humanidade, que lhe tirou a sanidade, que lhe destruiu e nos quais ela se afogou. E quando percebeu, era tarde demais, havia mergulhado naquele mar de dor, agora era ele quem estava morrendo dentro dos olhos dela e ele não queria lutar para não se afogar.

Vadia

em sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


Assinará o atestado de vadia no momento que resolveu sair de casa, levando pela mão, sua filha de oito anos. 
-Uma puta, com toda certeza! Afinal, abandonou o marido pra "cair no mundo",
-Obviamente fez isso com o objetivo de "dar pra todo mundo", que outro motivo ela teria?
-O marido, um pobre coitado, sempre trabalhou, ganhava bem, se esforçando pra dar o que ela queria, um pai exemplar, brincando com a filha, protegendo-a, um homem prendado, ajudava tanto nas tarefas de casa, nunca levantou a mão para ela. 
-Traição? 
-Jamais! Ele nunca teve olhos para outra.
-Um santo!
-Mas é assim mesmo, as mulheres como ela, não querem homens como ele, elas querem um cafajeste, um homem que lhe bata toda noite, chegue bêbado, drogado, desnorteado, que a trate como uma qualquer, porque é o que ela é, mulheres como ela querem um "porta de cadeia", um vagabundo que as obrigará a sustentá-lo, um homem que chegue em casa com cheiro de perfume de outra, marca de batom barato, que chegue em casa de manhã, que não de satisfação, que pegue o dinheiro na carteira dela, sem avisá-la, que a explore e acabe com sua juventude;
-É o tipo que mulheres (como ela) quer e merece ter. 
-Claro que ela não se separou simplesmente porquê já não estava mais feliz, AFINAL, tudo que uma mulher pode sonhar é um marido que não lhe agrida, que trabalhe, que não lhe trai, que não tem vícios... 
-E isso obviamente a fará feliz
-Obviamente todos sabem melhor da relação deles, do que ela própria, todos devem estar corretos. Afinal, O QUE ELA SABE? 

Ela apenas convive com ele entre quatro paredes, e qualquer característica desagradável dele pode ser tolerável diante de todas as suas qualidades. Claro que é possível relevar a mania dele de jogar na cara dela que a sustenta, de reclamar que ela não é bonita como antes, de falar em lugares públicos que é ele quem está pagando. 

A mania dele de insistir no sexo em dias que ela está saturada,  de impedi-lá de conversar com os amigos do sexo masculino que ela tem, ou melhor, tinha. A mania de se intrometer na roupa que ela usava, de ler as conversas dela no celular ou nas redes sociais. O costume dele de falar mal da família dela, de falar de forma desrespeitosa com ela na frente da filha, de menospreza-lá por não ter se profissionalizado, não ter feito um curso ou faculdade, apesar de as poucas vezes que ela mencionou a possibilidade de estudar, ele ter se posicionado completamente contra. 

Claro que é fácil perdoar a mania dele de compará-la com a ex, de descontar nela o estresse do trabalho, da derrota no futebol, de ignorar quando ela fala com ele, de reclamar de absolutamente tudo o que ela cozinha, de falar mal do estilo de roupa que ela usa...

Enfim, o que são agressões verbais, tortura psicológica, ameaça a sua integridade e imagem diante de sua filha, ameaça de ficar com a guarda da menina... O que isso importa, tão insignificante diante da agressão física, tão insignificante que está apenas a corroendo por dentro, que apenas a está enlouquecendo, que apenas acabou com qualquer rastro de felicidade e amor que ela sentia.

Mas ela é apenas uma vadia mesmo,  ela apenas tolerou tudo e por tanto tempo, pela filha, e agora que resolveu tentar lutar para recuperar sua felicidade, sua sede de viver, agora que ela resolveu voltar a andar no tempo, agora, ela é apenas uma vadia e ele, coitado, pobre homem,  é a vítima.

Orgasmo

em sexta-feira, 19 de janeiro de 2018


Traí, trai mesmo, não tenho vergonha de admitir, só tenho um arrependimento, não ter feito isso antes: O casamento já não fazia mais nenhum sentido, conversávamos sobre coisas banais, pouco interessados nas respostas um do outro, não sentíamos mais ciúmes ao ver o outro olhando para um desconhecido, na verdade, eu ficava aliviada ao vê-lo de olhos cravados em outra mulher, era a desculpa perfeita para dormir raivosa, para negar fazer sexo, para brigar até ele se estressar e sair do meu pé. O sexo já era uma espécie de tortura, monótono, mecânico, até fingir orgasmo passou a me incomodar, e como eu fingia, quase sempre, praticamente todas as vezes que transávamos, isso o deixava mais excitado, o fazia acabar mais rápido, e tudo o que eu queria é que acabasse, então fingia.

A verdade, é que nossa crise arrastou-se por anos, mas as coisas pioraram quando nossa filha, Clarissa, completou dezesseis anos, começou a namorar o filho do vizinho, o menino de dezoito anos, chamado Pedro, passou a frequentar nossa casa, Clarissa chegava da escola sempre a uma da tarde, almoçava, tomava banho e esperava o namoradinho, o garoto me cumprimentava tímido, logo os dois iam "assistir um filme" no quarto e começava a pegação, digamos que minha filha não é tão discreta ou reservada quanto a mãe e definitivamente mais satisfeita que a mãe, saiam corados do quarto e ela com rosto em êxtase. Mas o que incomodava eram os gritos e gemidos da minha filha, a face dela de pura alegria, de completa satisfação, de quem havia saciado sua sede, me consumia.

Um dia, a ouvi falar com uma amiga, como o namorado era incrível no quesito sexo, que ela já havia tido alguns orgasmos desde que começaram a transar, ela falava extasiada, e depois desse momento, não havia mais como abafar as perguntas que se formavam na minha mente: o que era aquela sensação? Como seria ter um orgasmo? Como minha filha, com menos da metade da minha idade, já sabia o que era essa sensação e eu não?

Pra piorar, a mais ou menos dois anos, mudou se para o apartamento de frente ao nosso, um casal, com seus dois filhos, Pedro de dezoito anos, atual namorado da minha filha, e Paulo, de vinte e poucos anos, o jovem logo começou a reparar em mim, me devorando com os olhos, não que eu seja uma mulher que gosta de homens mais novos, na verdade, nunca prestei muita atenção neles, mas o Paulo foi diferente, um sorriso fácil no canto dos lábios, espontâneo, sempre feliz, com o emprego, a faculdade, com os esportes que prática. Ombros largos,  braços grandes, uma pele morena e olhos verdes, uma tentação. Trocamos olhares por meses a fio, sonhei com ele noites seguidas, quando me deitava com meu marido, imaginava como seria com ele...

Numa tarde fatídica, que mudaria pra sempre minha vida, ele bateu a minha porta, pra entregar uma carta, que o porteiro lhe entregou por engano, não resistimos, a tensão que era palpável e já nos consumia a mais de ano, levou minha sanidade e no sofá da minha casa, tive meu primeiro orgasmo. Passei uma semana completamente entorpecida, minha mente variava entre a culpa e o desejo de fazer de novo, já fazia mais de uma década que não sentia, de fato, vontade de transar, mas depois daquela tarde no sofá de casa, essa vontade dominou minha mente. 

Em uma semana, pedi divórcio, a culpa e o desejo se converteram em uma enorme raiva, que me consumiu e tudo o que eu conseguia pensar era nas duas décadas de sexo ruim, que me atirasse a primeira pedra, aquele que nunca teve um orgasmo e não sabe o quanto eles fazem falta. Não haveria juiz no mundo que não se solidarizaria com a minha situação, casada com um homem incompetente, por duas décadas, presa a uma relação, sem ao menos imaginar o que estava perdendo. No final das contas, a raiva, o desejo e a culpa se abrandaram, não sobrou arrependimento da traição, apenas do tempo que levei para traí-lo, no final das contas, não sobrou casamento ou família, mas o orgasmo, ah, esse ficou e se multiplicou como o número de amantes. 


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